Must Love Dogs.
para Adolff, com o meu afeto.
Eu quero alguém que segure a minha mão para atravessar a rua. Eu quero alguém que me force a ver as coisas que eu, por teimosia ou por inércia, me recuso a enxergar. Eu quero alguém que me abrace quando um ataque de pânico me paralisar o corpo e me embaçar os sentidos. Eu quero alguém que leia Virginia Woolf e perceba toda a alegria e doçura da mais incompreendida das escritoras modernas. Eu quero alguém que conheça Nora Ney, Isaurinha Garcia e Dolores Duran. Eu quero alguém que aceite minha obsessão doentia por Maria Bethânia e entenda (e acredite) quando eu digo que ela é a mulher mais bonita do Brasil. Eu quero alguém que não ria ao me ver chorar por causa de uma comédia romântica banal. Eu quero alguém que me faça companhia nas noites insones e que me vele o sono nas manhãs melancólicas. Eu quero alguém que me beije sempre com o ardor dos amantes reencontrados. Eu quero alguém que me mostre o caminho, mas que me faça acreditar que a escolha foi minha. Eu quero alguém que veja através da minha armadura de independência, autossuficiência e altivez, e que cuide de mim como a criança acossada que sou. Eu quero alguém que se revele sem medo de parecer feio e pouco e sujo e vil e inadequado e vulgar. Eu quero alguém que me olhe com ternura infinita e que me viole a alma. Eu quero alguém que me desconserte e que me confunda e que me excite e que me surpreenda. Eu quero alguém que acredite no romantismo piegas e na cafonice extrema como bases sólidas para um relacionamento bem-sucedido. Enfim, eu quero alguém que não me ache ridículo por, mesmo depois de tantas quedas e baques, ainda ter muita fé no amor. Mas, acima de tudo, eu quero alguém que me queira: eu quero alguém que me queira todo, mesmo feio, mesmo pouco, mesmo sujo, mesmo vil, mesmo inadequado, mesmo vulgar. Mesmo eu.
“[...] faze com que eu perca o pudor de desejar que na hora de minha morte haja uma mão humana amada para apertar a minha, amém” (Clarice Lispector, em “Uma Aprendizagem ou O Livro dos Prazeres”).
sempre fico marejando...
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