quarta-feira, 23 de março de 2011

gorducha.

num dia de descarga emocional fortíssima (uma notícia devastadora combinada com essa distância incapacitante), consegui escrever mais. comigo é assim: só flui quando é mais forte que eu; é meio exorcismo...



O meu Deus.

para Camilla, na alegria e na tristeza.

“Deus tem um plano pra você”, me disseram com olhos de ternura e compaixão que se julgavam capazes de me comover e me consolar. Mas eu não acredito nesse deus. Eu me recuso a aceitar um deus que deliberadamente me tiraria do seio um filho que eu sequer planejei. Não concebo a ideia de um ser supostamente superior que tem como hobby brincar com as vidas das pessoas, como se jogasse xadrez distraído. Não. O meu Deus não faria isso. O meu Deus não ousaria, sob a desculpinha de ter “um plano pra mim”, irresponsavelmente me provocar essa dor. Prefiro acreditar num Deus sereno e condescendente, que assiste passivo às ocorrências mundanas, tendo como única qualidade uma esperança que Ele mesmo sabe burra. Sim, o meu Deus é assim: suave e tranquilo, ameno e doce. Mas idiota. Idiota como são aqueles que, como eu – criatura dEle feita à Sua imagem e semelhança – têm aquela fé cega num futuro mais bonito e menos ordinário.

O meu Deus espera apenas que eu faça o melhor com o que a Vida me impõe – essa sim, deusa cruel e inconsequente. Atroz e vil. Sádica. Bárbara. Maldita. O meu Deus, não. O meu Deus é bom, me consola e me ampara quando essa deusa mesquinha e má faz da minha vida um martírio por mero capricho. O meu Deus acolhe meu anjinho, que ainda não tinha nome, que sequer tinha sexo, e que, por um curto período, eu considerei inadequado, inoportuno, indesejado. O meu Deus é tão grande que até perdoa meu breve momento de incerteza. O meu Deus compreende meu lapso inicial – ante o justificável espanto – em reconhecer essa benção exatamente como isso: uma benção, um presente, uma dádiva, uma graça.

Ele, o meu Deus, me dá a força e a garra que me foram subtraídas assim subitamente; eu, que me encontro ferida e acossada como um bêbado que apanhasse e continuasse a ser chutado mesmo depois de já estar no chão. O meu Deus me segura quando tudo de bom que havia em mim (ainda há?) de repente desapareceu e eu fiquei sozinha, debilitada e muda. O meu Deus me entende quando tudo que eu o queria era gritar e desaparecer e... Não sei. Só sei que Ele me ajuda. Ele me acode. Ele me salva.

De agora em diante, quando eu abrir uma cerveja ou acender um cigarro – prazeres mundanos que, resignada e feliz, eu de bom grado abri mão –, o meu Deus não vai me julgar nem me condenar por, tão depressa, ceder a essas delícias pagãs cuja ausência eterna eu aceitaria com abdicada complacência caso me fosse concedido uma nova chance. E eu sei que eu sou jovem e posso ter outros tantos filhos quanto bem entender, mas não é disso que falo. Falo de ter de volta esse que escapou, esse que se foi tão cedo e cujo rosto eu jamais (re)conhecerei. O meu Deus me daria isso, não fosse ele tão impotente. O meu Deus me ofereceria feliz e de coração qualquer coisa que eu quisesse, eu sei. Mas Ele não tem esse poder. Ele é mero expectador e ombro amigo, coitado. Ele, o meu Deus, me comove justamente por isso: por, na Sua pequenez de recursos, ainda assim ser capaz de dividir comigo o pouco que tem. E que ninguém me acuse de blasfema; eu talvez seja bem mais devota e crédula do que qualquer um que se atreva a dizer: “Deus tem um plano pra você”.

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