quinta-feira, 31 de março de 2011


" Para desentristecer, leãozinho
O meu coração tão só
Basta eu encontrar você no caminho..."

Leãozinho, Caetano Veloso

quarta-feira, 30 de março de 2011

ôi, tum, tum, bate coração...

de vez em quando me dá uma saudade da minha terra que só eu sei, daí vou no youtube em busca de pérolas como essas. só não sei se ajuda ou se piora mais...



p.s.: queria que fosse são joão AGORA. :~

Pra começar


Eu não conhecia o projeto, mas depois do convite enviado por Rodolfo li algumas postagens e me deparei com amores de muitos tipos, poesia de muitos gêneros, fragmentos de vida da parte boa da vida, com pitadas de dor, angustia, sofrimentos que também me perseguem na minha caminhada. Me senti muito bem nesse espaço por perceber que outros espíritos comungam essa ideias. Alguém já dizia que “todos os seres comungam na dor”, que bom ter um espaço para comungar alegria, amor, poesia.

Confesso-me um tanto apreensiva sobre o que compartilhar, mas escolhi de início um trecho de Milan Kundera, na obra “ A identidade”, no qual o personagem Jean Marc fala sobre amizade, achei pertinente para dar boas vindas aos grandes amigos que partilham esse espaço:

“(...) a amizade tal qual se pratica hoje (...) é indispensável ao homem para o bom funcionamento de sua memória (...) a condição necessária para conservar a integridade do seu eu. A fim de que o eu não escolha, a fim de que ele mantenha seu volume, cumpre regar as lembranças como flores num vaso, e esse regar exige um contato regular com os amigos. Eles são nosso espelho, nossa memória; não se exige nada deles, a não ser que lustrem de tempos em tempos o espelho para que possamos nele nos olhar (...) O que eu sempre desejei, desde minha primeira juventude, desde minha infância talvez, era uma coisa inteiramente outra: a amizade como valor elevado acima de todos os outros (...) Sei hoje que essa máxima é arcaica. Ela poderia ser válida para Aquiles, o amigo de Patrocle, para os mosqueteiros de Alexandre Dumas, mesmo para Sancho, que era o verdadeiro amigo de seu mestre, a despeito de todos os desacordos. Mas ela não o é mais para nós.

KUNDERA, Milan, L’Identité. Paris: Gallimard, 1997, p. 50

terça-feira, 29 de março de 2011

le pethit prince.

thiago pethit lançou hoje seu clipe novo, uma sequência maravilhosa de tomada única estrelando alice braga:




para quem não conhece thiago, eu também recomendo outra canção, a linda e melancólica "mapa-múndi":

adão e eva.

"esperar Eva Green vir a São Paulo
por acaso conhecer Eva Green
convidar Eva Green para uma feijoada
beber com Eva Green cerveja e Salinas
ensinar Eva Green a sambar
no fim do dia ver com Eva Green o sol se pôr na praça do Pôr do Sol
se Eva Green for maconheira é melhor ter um baseado no bolso
falar de Rimbaud com Eva Green
mas Eva Green tem cara de quem prefere Baudelaire
traduzir Bandeira para Eva Green
Tom Jobim para Eva Green
Bocage para Eva Green
em hipótese alguma ler os poemas que escrevi sobre Eva Green
tomar um drinque no Terraço Itália com Eva Green
visitar Betito e Gô com Eva Green
não ir com Eva Green ao La Tartine
a não ser que Eva Green esteja muito nostálgica
ir ao cinema com Eva Green?
à praça Roosevelt com Eva Green?
sei que Eva Green não gosta de boate
apresentar a Eva Green uma boa padaria
amanhecer na Paulista com Eva Green
roubar um carro conversível
e descer para Santos com Eva Green
dormir num hotel barato mas limpinho com Eva Green
fazer amor com Eva Green
levantar tarde e comprar um biquíni
e protetor solar para Eva Green
comer mariscos com Eva Green e beber mais cerveja
em algum quiosque da beira da praia
quando Eva Green disser ‘vou dar um mergulho e já volto’
depressa avisar Eva Green que a água está poluída
consolar Eva Green por esse triste fato
prometer levar Eva Green a Picinguaba
onde o mar é verde como os olhos de Eva Green
agora sim mostrar para Eva Green os poemas que fiz para Eva Green
depois voltar ao hotel com Eva Green
massagear os pés de Eva Green
e deixar que Eva Green durma tranquila
então abrir a janela e tomar uma dose de uísque
olhando as estrelas e relembrando a infância
e sentir a maresia invadir o quarto e a cama
onde Eva Green dorme de lado com minha camiseta
e esfrega um pé no outro enquanto sonha"

"Plano", poema de Fabrício Corsaletti.




coisa mais linda esse poema, né? substitua "eva green" pelo nome da sua musa e, voilà! muito amor. <3

mm.

diz que marisão tá em estúdio gravando disco novo, né? eu só queria que ela parasse de posar de compositora conceituada e se concentrasse em fazer o que ela faz de melhor: cantar.

Começando....

Confesso que tenho andado um tanto quanto enferrujado ou quem sabe com um bloqueio para expressar o que venho sentindo, mas pesquisando algo na net sobre a Balada de Gisberta me deparei com o poeta responsável por ela, por esse vídeo e por muitos outros.
E vasculhando meu blog vi que tinha um texto escrito em 2008, precisamente no dia 08 de outubro que resolvi partilhar.

Lá vamos nós!!!

Fantasmas

Eu tento e como tento matar, sufocar esse imenso vazio que me assola.
Procuro me exaurir no dia-a-dia para chegar na cama exausto, fadigado, cansado para expirar todos os fantasmas da minha vida.
Paro, respiro e exalo na ânsia de extingui-los, mas eles vão e logo logo estão de volta.
Me perseguindo, me assustando.
Tento exorcizá-los, mas parece que eles já fazem parte da minha essência, do meu eu, da minha pele.
E dói. E é ruim.

Vivo com eles rondando a minha existência que, para ser preciso é quase uma co-existência.
Vivo com eles e eles sem mim não existiriam.
Às vezes me pergunto quem na verdade existe realmente, ou domina quem.
Se eles existem pelo simples fato de eu permitir, como podem causar tantos problemas?

Tolo quem pensa - é porque ele quer!

Na verdade acho eu, que na minha pífia ignorância não tenho escolhas.
Eles estão aqui, e assombram todos.
A verdade é que, onde existe vida existem parasitas, onde existem sonhos existem fantasmas e anjos e demônios.
E tenho que conviver com eles, todos eles.
Pois não passo de um fantasma travestido de gente.



Contradições.



"Só porque você não consegue dizer uma coisa, não quer dizer que você não queira dizer. Você pode querer muito. Você pode estar com uma pessoa e ser feliz com ela, e não amá-la. E você pode amar uma pessoa e não querer ficar com ela. Você não precisa amar uma pessoa pra querê-la. Mas é frustrante. Sabe, quando teu cérebro te diz o que você quer e o que você realmente quer não combinam, é cansativo. E, bom... é complicado. Mas é a vida. E a vida... ah, é uma merda."

sobre indignação e ativismo.

Nada me indigna mais nessa vida do que a NECESSIDADE de indignação do brasileiro. Mas democracia tem dessas coisas: o direito à liberdade de expressão que você possui implica no DEVER de escutar o que o outro tem a dizer, por mais absurda que a opinião dele seja (sob o seu ponto de vista).

Antes de mais nada, eu obviamente acho esse deputadozinho (me recuso a pronunciar seu nome) a escória da política brasileira e a personificação do que há de mais podre na alma humana. E acho as declarações dele de uma ignorância, de um preconceito, de um atraso, de uma violência, enfim, de uma perversidade sem tamanho. Mas ele tem o direito de dizer o que bem entender, desde que com isso não infrinja nenhuma lei.

Você não precisa concordar com ele, é claro, mas tampouco tem o direito de mandá-lo se calar. E o discurso dele não é de todo mau... Explico. Eu acho que as afirmações (anacrônicas) e os argumentos (patéticos) dele poderiam até mesmo nos ser úteis: sim, bastaria que alguém minimamente inteligente e tão retórico quanto ele soubesse usar as palavras proferidas pelo próprio para fazê-lo ruir.

Mas aí nos deparamos com três problemas: 1) ausência e/ou desinteresse de pessoas inteligentes e/ou retóricas para tal; 2) inexistência de terreno prepararado para receber os frutos dessa ação, já que no Brasil não há muitas políticas sérias de fomento/apoio à diversidade sexual; e 3) o grande contingente de pessoas que pensam, sentem e agem EXATAMENTE IGUAL a esse deputadozinho.

E eu considero esse terceiro fator o mais perigoso. Não pensem que o mundo é cor-de-rosa e que há uma bandeira do arco-íris hasteada em cada lar. Não pensem que as pessoas andam de mãos dadas, sorriem umas para as outras e pregam lições de amor, respeito e caridade. A verdade é outra, e vocês bem sabem disso, então meu conselho é: deixem esse idiota falar o que quiser (afinal, ele só é mais um entre muitos) e parem de dar atenção.

Nenhum palhaço faz show para uma plateia vazia. Assim, ao se indignar e colocar o nome dele em destaque, essa gente acaba fazendo um desserviço à humanidade e um grande favor à maldade que ele prega. Desarmem-se e pensem nisso: às vezes uma atitude (aparentemente) omissa é mais ativa do que um protesto em praça pública.


P.S.: Resolvi escrever isso depois de ler um milhão de tuítes de pessoas INDIGNADAS que estavam frenéticas EXIGINDO JUSTIÇA. ¬¬'

segunda-feira, 28 de março de 2011

O POETA DA VILA

Hoje assisti "Noel - poeta da vila" e estou só viva após sua última cena. Indico.
O ator que interpreta Noel é ótimo e a trilha sonora não fica atrás. Sintam:

Sou nova por aqui...

Alguns dias atrás Camilla havia me mostrado esse blog para que eu tivesse a oportunidade de ler alguns textos escritos por aqui. Confesso que me encantei e me encanto com pessoas que tem o dom da escrita. Feliz a pessoa que consegue transmitir ódio, amor, liberdade, confiança e amizade apenas em palavras.

Eu, particularmente não possuo esse dom, fiquei meio que receosa quando Rods me mandou esse convite. E faz cerca de uns 30 minutos que passei aqui pensando no que eu poderia falar na minha primeira postagem...
Porque eu não possuo esse dom também? Porque muitas palavras ou muitos sentimentos meus só são expostos depois de muita pressão? Acabo guardando tudo, não falando o que eu queria, não chorando o que eu precisava, não brincando, não abraçando, não beijando, não sendo eu, por medo do que o próximo pense de mim. E assim sofro minhas consequências, não sou ouvida, não sou acolhida quando preciso chorar, não recebo muitas brincadeiras pois sou tida como a fechada, não recebo muitos abraços, não ganho muitos beijos, pago um preço caro por ter medo de ser eu, de ser a Ana Paula que está presa em baixo de muitas pedras que a vida jogou em cima de mim. E isso dói, e isso passa...

(Desculpem o desabafo, os erros de português, e a choramingada.)

Terminarei essa tentativa frustrada de escrever algo, com um versinho solto de Caio na qual gosto muito, boa noite.


*


"Mas gosto, gosto das pessoas. Não sei me comunicar com elas, mas gosto de vê-las, de estar a seu lado, saber suas tristezas, suas esperas, suas vidas. Às vezes também me dá uma bruta raiva delas, de sua tristeza, sua mesquinhez. Depois penso que não tenho o direito de julgar ninguém, que cada um pode — e deve — ser o que é, ninguém tem nada com isso. Em seguida, minha outra parte sussurra em meus ouvidos que aí, justamente aí, está o grande mal das pessoas: o fato de serem como são e ninguém poder fazer nada. Só elas poderiam fazer alguma coisa por si próprias, mas não fazem porque não se vêem, não sabem como são. Ou, se sabem, fecham os olhos e continuam fingindo, a vida inteira fingindo que não sabem."

para hildinha.

"Sinto, Hildinha, a necessidade de penetrar numa outra dimensão, num outro nível de existir. Têm me doído o corpo e suas solicitações. Também não quero negar a carne, sei que se esse corpo nos foi dado é para que o usemos da maneira mais intensa possível, até ultrapassá-lo, até conseguir, através dele, atingir o mais alto. Acontece que, quase sempre, as vontades do corpo são baixas e escuras. Também por causa dessa maldição (?) homossexual, você sabe, os rituais, os bares especializados, essas coisas. É tão difícil. Quando cedo a isso, por desespero, tenho terríveis crises de consciência, depois. Crises que sei inúteis, desgastantes, porque mais dia menos dia voltará a ciranda do sexo. Se fosse possível um relacionamento claro entre duas pessoas, se eu conseguisse encontrar alguém que me completasse, que fosse completado por mim, que me saciasse o corpo para que o espírito pudesse voar. Espero isso, quase sempre sem procurar. Mas quando caio na procura, volto decepcionado, ferido, frustrado, enfraquecido. As pessoas têm medo da entrega. É mais fácil e menos comprometedor diluir-se na ciranda dos bares, das saunas, do deboche. As pessoas têm medo de se doarem. E seria tão bom, tão melhor. Essa é a minha maior preocupação espiritual, e não tenho conseguido divisar a solução, o equilíbrio. Não quero a prisão da carne, também não quero a sua perdição. Não quero tornar-me nem amargurado nem debochado. Não sei".

CAIO FERNANDO ABREU, 1972, em carta a Hilda Hilst (acervo de Antônio Naud Jr., in “Para sempre teu, Caio F. – cartas, conversas, memórias de Caio Fernando Abreu”, Paula Dip, Rio de Janeiro, Record, 2009, p. 147).

adeline virginia stephen.

há 70 anos, morria a escritora britânica virginia woolf (nascida adeline virginia stephen). ironicamente, a carta de suicídio dela é uma das coisas mais lindas e cheias de amor que eu já li na vida, e ficou antológica ao ser recitada por nicole kidman no filme "as horas" ("the hours", eua, 2002), no papel que lhe rendeu o oscar de melhor atriz.


"Dearest, I feel certain that I am going mad again. I feel we can’t go through another of those terrible times. And I shan’t recover this time. I begin to hear voices, and I can’t concentrate. So I am doing what seems the best thing to do. You have given me the greatest possible happiness. You have been in every way all that anyone could be. I don’t think two people could have been happier ‘til this terrible disease came. I can’t fight any longer. I know that I am spoiling your life, that without me you could work. And you will I know. You see I can’t even write this properly. I can’t read. What I want to say is I owe all the happiness of my life to you. You have been entirely patient with me and incredibly good. I want to say that – everybody knows it. If anybody could have saved me it would have been you. Everything has gone from me but the certainty of your goodness. I can’t go on spoiling your life any longer. I don’t think two people could have been happier than we have been. V."

sábado, 26 de março de 2011


Ilha de encantos, de magia natural
Teu mar agreste embate nos rochedos
É em ti que deposito meus desabafos
E confio meus medos…
Pequena pérola do atlântico
Tens magia no interior
Cativas com teu encanto
És a ilha do amor
As tardes de verão
Fazem encher a esplanada
Entre o som e o marisco
Está alegria e a gargalhada
Caí a noite e vem com ela
O brilho do sensual
Aquela luz do luar que embriaga as avenidas
Da bela cidade do Funchal
Entre caminhos na rocha talhados
Algo exótico, beleza pura e inebriante
Assim cativamos o mundo
E recebemos o visitante
Pequena ilha que me acolheu
Por ti me apaixonei perdidamente
É para ti esta homenagem
São palavras do coração simplesmente…

Ana Alves


Postei esse poema, no antigo Blog, antes de vir a Ilha da Madeira quando estava procurando informações sobre Funchal, Ilha da Madeira e Portugal. Bem, lembrei-me deste poema e posto novamente, porém com uma foto da vista do Funchal tirada da minha janela.

Beijos, Abraços e Saudades!

sexta-feira, 25 de março de 2011



Eu te amo, Maria, eu te amo tanto
Que o meu peito me dói como em doença
E quanto mais me seja a dor intensa
Mais cresce na minha alma o teu encanto."

(Vinícius de Moraes)
Mas não adianta mais chorar pelas palavras não ditas, pelas ações mal pensadas, pela pressa, pelo cigarro fumado, pela má sorte no amor. ~:




quinta-feira, 24 de março de 2011

lata d'água na cabeça, lá vai a elza, ave maria.

assisti ao documentário "elza" há algumas semanas e só tenho o seguinte a dizer: coisa linda de se ver. recomendo muito. deixo aqui um vídeo dela cantando uma das minhas músicas preferidas do seu repertório, "estou com raiva de você" (ironicamente bem pouco conhecida):

a morte

Bom dia, meus amores. Hoje vou postar pra vocês algo que escrevi um tempo atrás, quando passava por um final de um relacionamento, exatamente no dia 13 de Abril de 2009. Já fazem dois anos mas aqui dentro parece que foi ontem. Engraçado como certos sentimentos nunca saem da gente.

Abaixo do meu texto segue palavras de Tia Neuma, que ao ler me deu uma resposta digna.

Espero que gostem.


A morte

A pior morte é a de quem vive, pois não existe o consolo do impossível que a verdadeira morte nos dá. Existe apenas a angústia de sermos impotentes diante da vida e dos sentimentos.

Morre-se quem vive a força, quem não tem amor ou esperança na vida, quem vive cada dia à esperar o tempo passar. Também se morre quando se deixa de fazer parte da vida de alguém e este vive o desespero de sentir a morte de quem ainda vive.

Dói a morte de um sentimento que não deveria ter nascido e muito menos alimentado; e morre-se junto, sendo mais dificil de superar do que as pessoas supõem.

Toda morte gera uma lembrança, que vai se esvaindo aos poucos, como fazem as lembranças, até as que têm envolta muito amor; como se existisse um processo curativo inconsciente em nossa mente, que nos faz levantar, apesar da nossa desesperada determinação de nunca esquecer.

A morte é uma oportunidade que nunca volta e logo chega-se o tempo de enfrentar o fato com coragem e realismo, renunciando sonhos e esperanças.

“Todo homem tem uma tristeza dentro de si e não é pecado recordar um desgosto”

“Ela valia mais, mas não nascera para mais…”

(em Pássaros Feridos)


A resposta de Teresa Neuma

Monique,

Realmente, existem muitas formas de morte. E a pior, talvez seja esta de quem continua vivo fisicamente, pois não nos deixa esquecer. Por outro lado, a nossa determinação é quem dita o esquecimento, pois é nela e com ela que alimentamos algo que sempre vai existir, quieramos ou não, acreditemos ou não: o sonho e a esperança. Sempre haverá sonho e esperança. É próprio do ser humano, sem eles perdemos o rumo. Para onde iremos sem a capacidade de sonhar? Aquele sonho que não nos tira do chão duro em que pisamos, da realidade em que vivemos? O sonho de poder, como diz o poeta, “transformar as terças-feiras mais cinzentas em manhãs de domingo”. O que será de nosso amanhã sem a esperança de um novo amor, de uma vida melhor, mais amadurecida, mais firme? A morte existe sim e sempre vai existir, vivemos a cada dia a finitude de algo bom ou ruim, mas finitude. Contudo, a vida continua pulsando em corações como o seu, jovem, belo, forte. Viva, então, e seja feliz pois ser feliz é uma conquista de cada minuto da vida. Isso eu sei que você sabe fazer, pois vejo em você o perfil de uma grande guerreira.

Tia Neuma.

quarta-feira, 23 de março de 2011

gorducha.

num dia de descarga emocional fortíssima (uma notícia devastadora combinada com essa distância incapacitante), consegui escrever mais. comigo é assim: só flui quando é mais forte que eu; é meio exorcismo...



O meu Deus.

para Camilla, na alegria e na tristeza.

“Deus tem um plano pra você”, me disseram com olhos de ternura e compaixão que se julgavam capazes de me comover e me consolar. Mas eu não acredito nesse deus. Eu me recuso a aceitar um deus que deliberadamente me tiraria do seio um filho que eu sequer planejei. Não concebo a ideia de um ser supostamente superior que tem como hobby brincar com as vidas das pessoas, como se jogasse xadrez distraído. Não. O meu Deus não faria isso. O meu Deus não ousaria, sob a desculpinha de ter “um plano pra mim”, irresponsavelmente me provocar essa dor. Prefiro acreditar num Deus sereno e condescendente, que assiste passivo às ocorrências mundanas, tendo como única qualidade uma esperança que Ele mesmo sabe burra. Sim, o meu Deus é assim: suave e tranquilo, ameno e doce. Mas idiota. Idiota como são aqueles que, como eu – criatura dEle feita à Sua imagem e semelhança – têm aquela fé cega num futuro mais bonito e menos ordinário.

O meu Deus espera apenas que eu faça o melhor com o que a Vida me impõe – essa sim, deusa cruel e inconsequente. Atroz e vil. Sádica. Bárbara. Maldita. O meu Deus, não. O meu Deus é bom, me consola e me ampara quando essa deusa mesquinha e má faz da minha vida um martírio por mero capricho. O meu Deus acolhe meu anjinho, que ainda não tinha nome, que sequer tinha sexo, e que, por um curto período, eu considerei inadequado, inoportuno, indesejado. O meu Deus é tão grande que até perdoa meu breve momento de incerteza. O meu Deus compreende meu lapso inicial – ante o justificável espanto – em reconhecer essa benção exatamente como isso: uma benção, um presente, uma dádiva, uma graça.

Ele, o meu Deus, me dá a força e a garra que me foram subtraídas assim subitamente; eu, que me encontro ferida e acossada como um bêbado que apanhasse e continuasse a ser chutado mesmo depois de já estar no chão. O meu Deus me segura quando tudo de bom que havia em mim (ainda há?) de repente desapareceu e eu fiquei sozinha, debilitada e muda. O meu Deus me entende quando tudo que eu o queria era gritar e desaparecer e... Não sei. Só sei que Ele me ajuda. Ele me acode. Ele me salva.

De agora em diante, quando eu abrir uma cerveja ou acender um cigarro – prazeres mundanos que, resignada e feliz, eu de bom grado abri mão –, o meu Deus não vai me julgar nem me condenar por, tão depressa, ceder a essas delícias pagãs cuja ausência eterna eu aceitaria com abdicada complacência caso me fosse concedido uma nova chance. E eu sei que eu sou jovem e posso ter outros tantos filhos quanto bem entender, mas não é disso que falo. Falo de ter de volta esse que escapou, esse que se foi tão cedo e cujo rosto eu jamais (re)conhecerei. O meu Deus me daria isso, não fosse ele tão impotente. O meu Deus me ofereceria feliz e de coração qualquer coisa que eu quisesse, eu sei. Mas Ele não tem esse poder. Ele é mero expectador e ombro amigo, coitado. Ele, o meu Deus, me comove justamente por isso: por, na Sua pequenez de recursos, ainda assim ser capaz de dividir comigo o pouco que tem. E que ninguém me acuse de blasfema; eu talvez seja bem mais devota e crédula do que qualquer um que se atreva a dizer: “Deus tem um plano pra você”.

resposta.

entrei na vibe do que adolff escreveu e me dedicou, e resolvi "fazer a réplica". tomei uma cerveja (uma, juro!) e pulei "naquela nuvenzinha que separa a gente desse mundo comum" (parafraseando bethânia). saiu o seguinte:



Must Love Dogs.

para Adolff, com o meu afeto.

Eu quero alguém que segure a minha mão para atravessar a rua. Eu quero alguém que me force a ver as coisas que eu, por teimosia ou por inércia, me recuso a enxergar. Eu quero alguém que me abrace quando um ataque de pânico me paralisar o corpo e me embaçar os sentidos. Eu quero alguém que leia Virginia Woolf e perceba toda a alegria e doçura da mais incompreendida das escritoras modernas. Eu quero alguém que conheça Nora Ney, Isaurinha Garcia e Dolores Duran. Eu quero alguém que aceite minha obsessão doentia por Maria Bethânia e entenda (e acredite) quando eu digo que ela é a mulher mais bonita do Brasil. Eu quero alguém que não ria ao me ver chorar por causa de uma comédia romântica banal. Eu quero alguém que me faça companhia nas noites insones e que me vele o sono nas manhãs melancólicas. Eu quero alguém que me beije sempre com o ardor dos amantes reencontrados. Eu quero alguém que me mostre o caminho, mas que me faça acreditar que a escolha foi minha. Eu quero alguém que veja através da minha armadura de independência, autossuficiência e altivez, e que cuide de mim como a criança acossada que sou. Eu quero alguém que se revele sem medo de parecer feio e pouco e sujo e vil e inadequado e vulgar. Eu quero alguém que me olhe com ternura infinita e que me viole a alma. Eu quero alguém que me desconserte e que me confunda e que me excite e que me surpreenda. Eu quero alguém que acredite no romantismo piegas e na cafonice extrema como bases sólidas para um relacionamento bem-sucedido. Enfim, eu quero alguém que não me ache ridículo por, mesmo depois de tantas quedas e baques, ainda ter muita fé no amor. Mas, acima de tudo, eu quero alguém que me queira: eu quero alguém que me queira todo, mesmo feio, mesmo pouco, mesmo sujo, mesmo vil, mesmo inadequado, mesmo vulgar. Mesmo eu.

“[...] faze com que eu perca o pudor de desejar que na hora de minha morte haja uma mão humana amada para apertar a minha, amém” (Clarice Lispector, em “Uma Aprendizagem ou O Livro dos Prazeres”).

...porque eu estou só começando.

Gente, boa noite! Pedi pra Rodolfo me dizer os dados do antigo blog pra postar uns textos que venho escrevendo ao longo do tempo quando dá vontade, mas aí ele me disse que não tinha mais. Resolveu ele propor um novo, o que eu adorei. Eu não queria mesmo um blog só meu, queria um de todo mundo, eu sempre quero todo mundo que amo junto, vocês sabem, né? Já ví que ele iniciou os posts muitíssimo bem com mil coisas da Maribeth, essa linda. Hoje, pra começar, eu vou colocar um texto que escrevi dedicado a Rodolfo que já tem um tempo, mas não fala exatamente dele. Eu tava num momento bem peculiar. Acredito que na maioria dos casos dos textos que já estão escritos e que irei postar aos poucos a data está lá, se não estiver eu vou tentar lembrar e os que eu escrever daqui pra frente vou colocar a data pra ficar mais bem documentado. É isso. Um xero enorme e aproveitem! (Fui reler e mal comecei já to com os olhos cheios de lágrimas...aiai...)


ETERNAMENTE

Para Rodolfo, que eu amo e que tenta me compreender.

Tá chegando a hora da verdade e eu não sei se tenho cacife pra segurar a barra. Não tá dando. Penso em morrer, em me matar. Essa chuva lá fora, esse coração aqui dentro, essa música em todo o mundo e a minha cabeça me dizendo o tempo todo que eu temo a mediocridade como o gato que foge do cão, às pressas, subindo paredes, pulando obstáculos, mas sempre parece que ele está mais perto do que nunca e pronto pra arrancar um pedaço da minha carne assim que eu der bobeira. É muito difícil se desfazer porque é invariável que eu terei de me refazer outra vez. E a força pra isso? Olho pra mim e vejo que não consegui realizar nada do que eu acho que é interessante nessa vida, mas também não sei se o que eu acho importante me impuseram ou é coisa minha mesmo, simplesmente não sei, só sei que sinto. Juro que não queria estar no meio disso tudo porque não vejo muita saída, mas a vida me pôs aqui. O que fazer se não tem nenhuma cerveja nessa casa, nem um amigo no condomínio, nem como ir buscar nenhum dos dois pr’eu não me sentir tão sozinho? Mas aí me lembro. Que um dia eu já estive bem pior, que eu tive depressão, que eu morri de amor, que eu me ignorei por completo, que eu me senti humilhado, que ninguém me entendeu, que eu não tinha forças pra voltar atrás porque me parecia retrocesso, que fui burro em acreditar tanto que poderia haver mudanças, muitas vezes, mil quinhentas e cinqüenta e duas vezes, que eu tive (e tenho e terei) muita saudade, saudade de mim mesmo, da minha mãe, dos meus amigos, dos meus lugares, da alegria, do amor. Sim, do amor, esse que parecia tão próximo, tão amigo, mas estava tão longe que eu tive a impressão de ser míope, não acreditei no que via porque era tudo embaçado demais. Mas era verdade. E mesmo com tudo isso eu ainda estou aqui tentando sobreviver, mas dessa vez com menos desespero e com mais serenidade, esperando o tempo da vida, o tempo do tempo, o tempo se completar e levar com ele essas sensações todas, essas ruins, de impotência e de infelicidade. Talvez já seja muito passar por esses momentos e sair com apenas alguns arranhões que virarão cicatrizes, e no futuro as olharei e rirei sozinho dessa imbecilidade toda, minha e de todo mundo, talvez já seja muito ser eu mesmo apesar. A-pe-sar. Talvez já seja muito ter essa coragem de voltar, de recomeçar. Não quero fingir que está tudo bem, não quero fingir que não foi bom te ver hoje, não quero fingir que sou forte e que não choro, não quero fingir que essa impossibilidade toda me faz tão infeliz. De que adianta? Nada adianta, um dia eu vou estar aqui de novo, não posso tentar escapar. Não posso tentar escapar da paixão, não posso tentar escapar da vida, essas duas certamente me farão chorar outra vez. Agora me explique, pra que? Porque não paz verdadeira e felicidade sem fim com Teresa cantando? Porque não meu quintal, a varanda do Rodolfo, o Peixe Elétrico e Brito sempre? Um pra cada dia da semana e repetindo, repetindo, repetindo? O céu deve ser assim, sem mágoa. Só musica, cerveja e alegria E-TER-NA-MEN-TE.

Natal, 26 de maio de 2010. Meia noite e quarenta e seis.