
" Para desentristecer, leãozinho
O meu coração tão só
Basta eu encontrar você no caminho..."
Leãozinho, Caetano Veloso

Eu não conhecia o projeto, mas depois do convite enviado por Rodolfo li algumas postagens e me deparei com amores de muitos tipos, poesia de muitos gêneros, fragmentos de vida da parte boa da vida, com pitadas de dor, angustia, sofrimentos que também me perseguem na minha caminhada. Me senti muito bem nesse espaço por perceber que outros espíritos comungam essa ideias. Alguém já dizia que “todos os seres comungam na dor”, que bom ter um espaço para comungar alegria, amor, poesia.
Confesso-me um tanto apreensiva sobre o que compartilhar, mas escolhi de início um trecho de Milan Kundera, na obra “ A identidade”, no qual o personagem Jean Marc fala sobre amizade, achei pertinente para dar boas vindas aos grandes amigos que partilham esse espaço:
“(...) a amizade tal qual se pratica hoje (...) é indispensável ao homem para o bom funcionamento de sua memória (...) a condição necessária para conservar a integridade do seu eu. A fim de que o eu não escolha, a fim de que ele mantenha seu volume, cumpre regar as lembranças como flores num vaso, e esse regar exige um contato regular com os amigos. Eles são nosso espelho, nossa memória; não se exige nada deles, a não ser que lustrem de tempos em tempos o espelho para que possamos nele nos olhar (...) O que eu sempre desejei, desde minha primeira juventude, desde minha infância talvez, era uma coisa inteiramente outra: a amizade como valor elevado acima de todos os outros (...) Sei hoje que essa máxima é arcaica. Ela poderia ser válida para Aquiles, o amigo de Patrocle, para os mosqueteiros de Alexandre Dumas, mesmo para Sancho, que era o verdadeiro amigo de seu mestre, a despeito de todos os desacordos. Mas ela não o é mais para nós.
KUNDERA, Milan, L’Identité. Paris: Gallimard, 1997, p. 50



A pior morte é a de quem vive, pois não existe o consolo do impossível que a verdadeira morte nos dá. Existe apenas a angústia de sermos impotentes diante da vida e dos sentimentos.
Morre-se quem vive a força, quem não tem amor ou esperança na vida, quem vive cada dia à esperar o tempo passar. Também se morre quando se deixa de fazer parte da vida de alguém e este vive o desespero de sentir a morte de quem ainda vive.
Dói a morte de um sentimento que não deveria ter nascido e muito menos alimentado; e morre-se junto, sendo mais dificil de superar do que as pessoas supõem.
Toda morte gera uma lembrança, que vai se esvaindo aos poucos, como fazem as lembranças, até as que têm envolta muito amor; como se existisse um processo curativo inconsciente em nossa mente, que nos faz levantar, apesar da nossa desesperada determinação de nunca esquecer.
A morte é uma oportunidade que nunca volta e logo chega-se o tempo de enfrentar o fato com coragem e realismo, renunciando sonhos e esperanças.
“Todo homem tem uma tristeza dentro de si e não é pecado recordar um desgosto”
“Ela valia mais, mas não nascera para mais…”
(em Pássaros Feridos)
Monique,
Realmente, existem muitas formas de morte. E a pior, talvez seja esta de quem continua vivo fisicamente, pois não nos deixa esquecer. Por outro lado, a nossa determinação é quem dita o esquecimento, pois é nela e com ela que alimentamos algo que sempre vai existir, quieramos ou não, acreditemos ou não: o sonho e a esperança. Sempre haverá sonho e esperança. É próprio do ser humano, sem eles perdemos o rumo. Para onde iremos sem a capacidade de sonhar? Aquele sonho que não nos tira do chão duro em que pisamos, da realidade em que vivemos? O sonho de poder, como diz o poeta, “transformar as terças-feiras mais cinzentas em manhãs de domingo”. O que será de nosso amanhã sem a esperança de um novo amor, de uma vida melhor, mais amadurecida, mais firme? A morte existe sim e sempre vai existir, vivemos a cada dia a finitude de algo bom ou ruim, mas finitude. Contudo, a vida continua pulsando em corações como o seu, jovem, belo, forte. Viva, então, e seja feliz pois ser feliz é uma conquista de cada minuto da vida. Isso eu sei que você sabe fazer, pois vejo em você o perfil de uma grande guerreira.
Tia Neuma.
ETERNAMENTE
Para Rodolfo, que eu amo e que tenta me compreender.
Tá chegando a hora da verdade e eu não sei se tenho cacife pra segurar a barra. Não tá dando. Penso em morrer, em me matar. Essa chuva lá fora, esse coração aqui dentro, essa música em todo o mundo e a minha cabeça me dizendo o tempo todo que eu temo a mediocridade como o gato que foge do cão, às pressas, subindo paredes, pulando obstáculos, mas sempre parece que ele está mais perto do que nunca e pronto pra arrancar um pedaço da minha carne assim que eu der bobeira. É muito difícil se desfazer porque é invariável que eu terei de me refazer outra vez. E a força pra isso? Olho pra mim e vejo que não consegui realizar nada do que eu acho que é interessante nessa vida, mas também não sei se o que eu acho importante me impuseram ou é coisa minha mesmo, simplesmente não sei, só sei que sinto. Juro que não queria estar no meio disso tudo porque não vejo muita saída, mas a vida me pôs aqui. O que fazer se não tem nenhuma cerveja nessa casa, nem um amigo no condomínio, nem como ir buscar nenhum dos dois pr’eu não me sentir tão sozinho? Mas aí me lembro. Que um dia eu já estive bem pior, que eu tive depressão, que eu morri de amor, que eu me ignorei por completo, que eu me senti humilhado, que ninguém me entendeu, que eu não tinha forças pra voltar atrás porque me parecia retrocesso, que fui burro em acreditar tanto que poderia haver mudanças, muitas vezes, mil quinhentas e cinqüenta e duas vezes, que eu tive (e tenho e terei) muita saudade, saudade de mim mesmo, da minha mãe, dos meus amigos, dos meus lugares, da alegria, do amor. Sim, do amor, esse que parecia tão próximo, tão amigo, mas estava tão longe que eu tive a impressão de ser míope, não acreditei no que via porque era tudo embaçado demais. Mas era verdade. E mesmo com tudo isso eu ainda estou aqui tentando sobreviver, mas dessa vez com menos desespero e com mais serenidade, esperando o tempo da vida, o tempo do tempo, o tempo se completar e levar com ele essas sensações todas, essas ruins, de impotência e de infelicidade. Talvez já seja muito passar por esses momentos e sair com apenas alguns arranhões que virarão cicatrizes, e no futuro as olharei e rirei sozinho dessa imbecilidade toda, minha e de todo mundo, talvez já seja muito ser eu mesmo apesar. A-pe-sar. Talvez já seja muito ter essa coragem de voltar, de recomeçar. Não quero fingir que está tudo bem, não quero fingir que não foi bom te ver hoje, não quero fingir que sou forte e que não choro, não quero fingir que essa impossibilidade toda me faz tão infeliz. De que adianta? Nada adianta, um dia eu vou estar aqui de novo, não posso tentar escapar. Não posso tentar escapar da paixão, não posso tentar escapar da vida, essas duas certamente me farão chorar outra vez. Agora me explique, pra que? Porque não paz verdadeira e felicidade sem fim com Teresa cantando? Porque não meu quintal, a varanda do Rodolfo, o Peixe Elétrico e Brito sempre? Um pra cada dia da semana e repetindo, repetindo, repetindo? O céu deve ser assim, sem mágoa. Só musica, cerveja e alegria E-TER-NA-MEN-TE.
Natal, 26 de maio de 2010. Meia noite e quarenta e seis.