Alimento para a alma.
segunda-feira, 13 de agosto de 2012
quinta-feira, 9 de agosto de 2012
Os Estatutos do Homem
Fonte: http://www.revista.agulha.nom.br/tmello.html
terça-feira, 7 de agosto de 2012
Vai Passar
"Vai passar, tu sabes que vai passar. Talvez não amanhã, mas dentro de uma semana, um mês ou dois, quem sabe? O verão está ai, haverá sol quase todos os dias, e sempre resta essa coisa chamada "impulso vital". Pois esse impulso às vezes cruel, porque não permite que nenhuma dor insista por muito tempo, te empurrará quem sabe para o sol, para o mar, para uma nova estrada qualquer e, de repente, no meio de uma frase ou de um movimento te supreenderás pensando algo como "estou contente outra vez". Ou simplesmente "continuo", porque já não temos mais idade para, dramaticamente, usarmos palavras grandiloqüentes como "sempre" ou "nunca". Ninguém sabe como, mas aos poucos fomos aprendendo sobre a continuidade da vida, das pessoas e das coisas. Já não tentamos o suicidio nem cometemos gestos tresloucados. Alguns, sim - nós, não. Contidamente, continuamos. E substituimos expressões fatais como "não resistirei" por outras mais mansas, como "sei que vai passar". Esse o nosso jeito de continuar, o mais eficiente e também o mais cômodo, porque não implica em decisões, apenas em paciência."
Sem Aviso
(Composição: Francisco Bosco / Fred Martins)
Anda
tira essa dor do peito, anda
despe essa roupa preta e manda
seu corpo deslembrar
Cantavira dor pelo avesso
Canta
larga essa vida assim as tontas
Deixa esse desenganar
Calma
Dê o tempo ao tempo, calma
alma
Põe cada coisa em seu lugar
E o dia virá, algum dia virá
Sem aviso
então...
segunda-feira, 6 de agosto de 2012
Samba da Volta
Para embalar o "samba da volta", trouxe um texto que li recentemente de Caio f. e que me deixou em estado de catarse por uns longos minutos.
Espero que ele consiga chegar até vocês também.
AO SOM DE SUZANNE VEGA
Preciso de alguém,
e é tão urgente o que digo. Perdoem excessivas, obscenas carências, pieguices,
subjetivismos, mas preciso tanto e tanto. Perdoem a bandeira desfraldada, mas é
assim que as coisas são-estão dentro-fora de mim: secas. Tão só nesta hora tardia
– eu, patético detrito pós-moderno com resquícios de Werher e farrapos de
versos de Jim Morrison. Abaporu heavy-metal –, só sei falar dessas ausências
que ressecam a palma da mão de carícias não dadas.
Preciso de alguém
que tenha ouvidos para ouvir, porque são tantas histórias a contar. Que tenha
boca para, porque são tantas histórias para ouvir, meu amor. E um grande
silêncio desnecessário de palavras. Para ficar ao lado, cúmplice, dividindo o
astral, o ritmo, a over, a libido, a percepção da terra, do ar, do fogo, da
água, nesta saudável vontade insana de viver. Preciso de alguém que eu possa
estender a mão devagar sobre a mesa para tocar a mão quente do outro lado e
sentir uma resposta como – eu estou aqui, eu te toco também. Sou o bicho humano
que habita a concha ao lado da concha que você habita, e da qual te salvo, meu
amor; apenas porque te estendo a minha mão.
No meio da fome, do
comício, da crise, no meio do vírus, da noite e do deserto – preciso de alguém
para dividir comigo esta sede. Para olhar seus olhos que não adivinho castanhos
nem verdes nem azuis e dizer assim: que longa e áspera sede, meu amor. Que
vontade, que vontade enorme de dizer outra vez meu amor, depois de tanto tempo
e tanto medo. Que vontade escapista e burra de encontrar noutro olhar que não o
meu próprio – tão cansado, tão causado – qualquer coisa vasta e abstrata
quanto, digamos assim, um Caminho. Esse, simples mas proibido agora: o de tocar
no outro. Querer um futuro só porque você estará lá, meu amor. O caminho de encontrar
num outro humano, o mais humilde de nós. Então direi de boca luminosa de
ilusão: te amo tanto. E te beijarei fundo molhado, em puro engano de instantes
enganosos transitórios – que importa?
(mas finjo de
adulto, digo coisas falsamente sábias, faço caras sérias, responsáveis. Engano,
mistifico. Disfarço esta sede de ti, meu amor que nunca veio – viria? Virá? – e
minto não, já não preciso).
Preciso sim,
preciso tanto. Alguém que aceite tanto meus sonos demorados, quanto minhas
insônias insuportáveis. Tanto meu ciclo ascético Francisco de Assis quanto meu
ciclo etílico bukovskiano. Que me desperte com um beijo, abra a janela para o
sol ou a penumbra. Tanto faz, e sem dizer nada me diga o tempo inteiro alguma
coisa como eu sou o outro ser conjunto ao teu, mas não sou tu, e quero adoçar
tua vida. Preciso do teu beijo de mel na minha boca de areia seca, preciso da
tua mão de seda no couro da minha mão crispada de solidão. Preciso dessa emoção
que os antigos chamavam de amor, quando o sexo não era morte e as pessoas não
tinham medo disso que fazia a gente dissolver o próprio ego no ego do outro e
misturar coxas e espírito no fundo do outro-você, outro-espelho,
outro-igual-sedento-de-não-solidão, bicho-carente, tigre e lótus. Preciso de
você que eu tanto amo e nunca encontrei. Para continuar vivendo, preciso da
parte de mim que não está em mim, mas guardada em você que eu não conheço.
Tenho urgência de
ti, meu amor. Para me salvar da lama movediça de mim mesmo. Para me tocar, para
me tocar e no toque me salvar. Preciso ter certeza que inventar nosso encontro
sempre fui pura intuição, não mera loucura. Ah, imenso amor desconhecido.
Para não morrer de sede, preciso de você agora, antes destas palavras todas
cairem no abismo dos jornais não lidos ou jogados sem piedade no lixo. Do
sonho, do engano, da possível treva e também da luz, do jogo, do embuste:
preciso de você para dizer te amo outra e outra vez. Como se fosse possível,
como se fosse verdade, como se fosse ontem e amanhã.
OESP, Caderno 2, 29 julho de 1987
(Gracias, Lara)
sexta-feira, 3 de junho de 2011
PIPOCA.
"Milho de pipoca que não passa pelo fogo continua a ser milho para sempre."
Assim acontece com a gente. As grandes transformações acontecem quando passamos pelo fogo.
Quem não passa pelo fogo, fica do mesmo jeito a vida inteira. São pessoas de uma mesmice e uma dureza assombrosa. Só que elas não percebem e acham que seu jeito de ser é o melhor jeito de ser.
Mas, de repente, vem o fogo. O fogo é quando a vida nos lança numa situação que nunca imaginamos: a dor. Pode ser fogo de fora: perder um amor, perder um filho, o pai, a mãe, perder o emprego ou ficar pobre. Pode ser fogo de dentro: pânico, medo, ansiedade, depressão ou sofrimento, cujas causas ignoramos. Há sempre o recurso do remédio: apagar o fogo! Sem fogo o sofrimento diminui. Com isso, a possibilidade da grande transformação também.
Imagino que a pobre pipoca, fechada dentro da panela, lá dentro cada vez mais quente, pensa que sua hora chegou: vai morrer. Dentro de sua casca dura, fechada em si mesma, ela não pode imaginar um destino diferente para si. Não pode imaginar a transformação que esta sendo preparada para ela. A pipoca não imagina aquilo de que ela é capaz. Aí, sem aviso prévio, pelo poder do fogo a grande transformação acontece: BUM! E ela aparece como uma outra coisa completamente diferente, algo que ela mesma nunca havia sonhado.
Bom, mas ainda temos o piruá, que é o milho de pipoca que se recusa a estourar. São como aquelas pessoas que, por mais que o fogo esquente, se recusam a mudar. Elas acham que não pode existir coisa mais maravilhosa do que o jeito delas serem. A presunção e o medo são a dura casca do milho que não estoura. No entanto, o destino delas é triste, já que ficarão duras, a vida inteira. Não vão se transformar na flor branca, macia e nutritiva. Não vão dar alegria para ninguém.
Extraído do livro "O amor que acende a lua", de Rubem Alves.
Ps: Acho que preciso passar por um incêndio.
quarta-feira, 25 de maio de 2011
No dia de minha morte
Tomarei um café da manhã com sabor de infância feliz. Vestirei uma roupa leve e sem camisa. Estará chovendo. Darei a mão à chuva e dançarei consigo.
A água que alimenta, também equilibrar-me-á os humores, removerá a tristeza, eliminará o restim de melancolia, os nãos rejeitados, os sins infelizes, os por quês não explicados.
No dia de minha morte viajarei pelas mais belas paisagens terrestres e planetárias; comerei sem preocupação com o açúcar ou o colesterol, e cantarolarei rouco, desafinado e firme... em voz alta, claro!
A água que do céu viaja trará consigo a força antípoda da energia do fogo que me faz queimar, arder de satisfação por ter vivido, sentido e encontrado com quem convivi, por quem senti e compartilhei fluídos quânticos de prazer e/ou idéias, conduzindo-me a excelência de ser homem que faz de seus medos, a arma mais combativa e eficaz, na caminhada terrena.
Esse fogo que tanto me aquece o coração, por tantas e tantas vezes, conduzindo a lançar-me sem escrúpulos moralistas, ao sabor do não, bem aceito, do sim, certeiro, sem explicações vis.
Esse fogo em mim aceso pelo vento norte, vento sul, vento de todas as direções e que me aproxima dos pássaros, fomentando diuturnamente em mim, vivendo e degustando o sentimento que mais amo e venero – a liberdade!
No dia que eu morrer, quero cinzas de mim. As cinzas? Que sejam distribuídas nos banquetes dos corruptos, insensatos e maus de coração tirando-lhes a risada falsa, a alegria maldita, a volúpia infame.
Noutra parte, entreguem-lhes nos braços do mar, no colo de Iemanjá onde repousarei.
O tiquim que sobrar, juntem-nas as sementes de flanboyants e as semeiem nos solo de minha terra querida, perto de minha gente e dos meus.
No dia de minha morte, quero festa. Sanfona, zabumba e triângulo tiniiiinndo.
Aos presentes, bolo de puba, milho e batata doce. Para não engasgar, suco de qualquer coisa.
Não deixem faltar cachaça da branca e da amarela, esta última, curtida no carvalho.
Aos amigos de vida, peço apenas um brinde com os dizeres: - Pense n’um caba arretado!!!!
A morte é a primeira gota de vida, é o passo seguinte, é a renovação diária, é o que afasta da ignorância, da estagnação e da inércia; é aprendizado, é maturidade, é sabedoria.
A morte é quem dirige o belo espetáculo da vida.
Júlio Lima
Médico/Professor
E meu amigo.
segunda-feira, 16 de maio de 2011
É preciso
Em plena segunda-feira lembremos:"É preciso estar sempre embriagado. Eis aí tudo: é a única questão. Para não sentirdes o horrível fardo do Tempo que rompe os vossos ombros e vos inclina para o chão, é preciso embriagar-vos sem trégua.
Mas de quê? De vinho, de poesia ou de virtude, à vossa maneira. Mas embriagai-vos.
E se, alguma vez, nos degraus de um palácio, sobre a grama verde de um precipício, na solidão morna do vosso quarto, vós acordardes, a embriaguez já diminuída ou desaparecida, perguntai ao vento, à onda, à estrela, ao pássaro, ao relógio, a tudo que foge, a tudo que geme, a tudo que anda, a tudo que canta, a tudo que fala, perguntai que horas são; e o vento, a onda, a estrela, o pássaro, o relógio, responder-vos-ão: 'É hora de embriagar-vos! Para não serdes os escravos martirizados do Tempo, embriagai-vos: embriagai-vos sem cessar! De vinho, de poesia ou de virtude, à vossa maneira'."
Baudelaire
sexta-feira, 13 de maio de 2011
terça-feira, 10 de maio de 2011
corda.
nadando contra a corrente.
meu gosto pessoal são outros 500.
amor?
segunda-feira, 9 de maio de 2011
O sumiço de Maria Rosa.
Foram só quinze dias de um idílio diferente, entre eu e Maria Rosa. No começo, quando apareceu na minha calçada, quando me aproximava, mesmo para dá comida ela fugia e entrava num cano (seu esconderijo, até para fugir dos cachorros). Mas o tempo e os meus afetos foram nos aproximando, ela já ousava ficar no meu colo e me acompanhar quando eu andava. Onde estará Maria Rosa? Posso até tê-la matado, pois ela aprendeu a entrar no motor do carro. Joana, no seu eterno pessimismo, diz que ela deve ter ficado entalada no cano, pois estava crescendo e engordando. Ela veio numa hora certa, onde minhas angústias, minhas saudades e minhas tantas coisas que nem sei dizer, ficava a procura de algo, um complemento, qualquer coisa para preencher este vazio imenso que se formou. Quando Joana estava longe, nós nos curtíamos melhor, até flagrei ela correndo, dando pulos, numa demonstração de alegria, talvez me agradecendo. Como foi efêmero e breve e este amor. Só faz 12 horas que ela sumiu, e se estou escrevendo estas besteiras, é por que não tenho mais esperanças de encontrá-la, até andei aqui pelo bairro, olhando, procurando, tudo em vão. Só Monique partilhava comigo esse amor por Maria Rosa, até porque não encontrei mais ninguém para dividir as minhas alegrias em ter perto aquela coisinha preta, completamente preta, só os olhos de um verde intenso e sofrido, também pudera, nascida na rua, sem ninguém a lhe querer. Fico com a tristeza mais profunda sem ter com quem compartilhar, pensar que não tenho o que fazer, então estou escrevendo sobre ela, mais não vou esquecer jamais, aquele olhar penetrante, talvez até só de agradecimento, depois do leite Molico que eu roubava de Joana (no começo achou ruim, depois se acostumou).Tentei educá-la, não deixando ela entrar em casa, afastando-a de Joana, até com medo que ela a repelisse, mas o tempo, tenho certeza, iria aproximá-las. Não sei se aparecerá outra Maria Rosa, entre tantas que perambulam pelas sujas ruas desta cidade. Pequei, eu sei, pois devia ter seguido os conselhos, parece que de me pai, que os gatos não têm amor, aparecem e desaparecem, deixando a saudade e a dor.Ismael Farias.
PS: texto escrito quando meu pai morava no Maranhão. Maria Rosa era uma gatinha preta.
domingo, 8 de maio de 2011
Mundo deserto
No mundo deserto de almas negras
Me visto de branco
Me curo da vida sofrida, sentida
Que deram pra mim
No mundo deserto de almas negras
Sorriso não nego
Mas vejo um sol cego
Querendo queimar o que resta de mim
Vivo no mundo deserto de almas negras
Vivo no mundo deserto de almas negras
Vivo no mundo deserto de almas negras
Na vontade de verdade
Eu quero ficar
E não acredito no dito maldito
Que o amor já morreu
Tenho fé que o meu país
Ainda vai dar amor pro mundo
Um amor tão profundo, tão grande
Que vai reviver quem morrer
quinta-feira, 28 de abril de 2011
"Moço, não se meta
Que ela anda armada
De uma flor e uma canção"
Ferreira Gullar
o afogado
C.F.A.
segunda-feira, 25 de abril de 2011
Marla de Queiroz
(Ontem li algo de Marla e gostei. Fui dar uma olhada no que ela já escreveu e acabei encontrando coisas ótimas. Este trecho diz muito do ando pensando. Aliás, acho que a maioria de nós. Ou não. whatever.)
Extensão
Rio de Janeiro
Eu busquei encontrar na extensão um caminho
Um caminho qualquer para qualquer lugar.
Eu segui ao sabor de todos os ventos
Mas somente a extensão.
Chorei. Prostrado na terra eu olhei para o céu
E pedi ao Senhor o caminho da fé.
Noites e noites foram-se em silêncio
E somente a extensão.
Quis morrer. Talvez a terra fosse o único caminho
E à terra me abracei esperando o meu fim
Porém tudo era terra e eu não quis mais a terra
Que era a grande extensão.
Quis viver. E em mim mesmo eu busquei o caminho
Na ansiedade de uma última esperança
Eu olhei - e volvi à extensão desesperado
Era tudo extensão.
Vinícius de Morais
Lembrei tanto desse poema esses dias....